segunda-feira, março 20, 2006

Mas vou acreditando, às réstias, sem pensar nisso. Seja num eu mais compensado na alma, mais imperturbável no verbo, menos traído e menos traidor no estar. Seja num tu que não sei quem é, de braços abertos e ouvidos metafísicos e amorosos de compreensão. Seja em dias mais plenos de algo, de expressão, de feedback, de autenticidade no bom, e mais plenos de liberdade, sentida e consumanda.
Sei que tudo isso existe, sob alguma forma. O fundo de um poço fundo, voltei a deixá-lo há algumas milhas. E as suas piores vertigens são principalmente memórias, vazias dada a sua precisão. Agora, alterna-se escaladas sem aspereza com algum escorregadio (vestígios inseguros de humidade nas paredes do poço), nem sempre do mais ligeiro.
Deste panorama por conotar, inspira-me a sua existência para a vaga arte que é o dia. Ainda que se arredonde nula, existe, e eu com ela. Não sou uma minha criação, nem uma minha estrutura, mas existo. E vou existindo, e o principal vai sendo não me afastar do principal, não me deixar repartir, não me procurar contentar com fracções e mímicas suficientemente passivas e descomprometedoras de mim, por abominar cenários subconscientes e perigosos de crítica e menosprezo, de implícita hostilidade; não me subverter a qualquer hábito ou falso objectivo, diário ou momentâneo, demasiadamente imposto, que me vede a liberdade em geral, que permanentemente me tolde a clareza de sentimento, o nascimento de escolhas verdadeiras.
Mas chega de blá blá. Transcenda-se o papel-ecrã, em pretensão de hipóteses. Cumpra-se aquele que de algures, onde mora, vai vivendo.
(E que fique para outro dia, após o contra-relógio, a constatação final de não ter conseguido.)